Arquitetura

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Maria das Mercês Vasques Bittencourt
Maria Ewelin Wasner Marchado

 

“Aquela egrejinha , pouzada como uma águia branca nas toscas penedias que a cercam, tem sua lenda cheia de poesia, como todas as lendas brotadas da piedade christan.”

 

Antônio Olyntho dos Santos Pires (1902)

 

Dos mais importantes e significativos monumentos de Minas Gerais, o conjunto da Serra da Piedade destaca-se por características “sui-generis” para uma construção do séc. XVIII, visto tratar-se de edificação de caráter religioso, com programa constituído de ermida e eremitério anexo. Acresce a circunstância de abrigar a imagem milagrosa de Nossa Senhora da Piedade, de autoria atribuída a Francisco Antônio Lisboa, tendo sido a Santa proclamada padroeira do estado, em 1958, pelo Papa João XXIII.
Por ser local voltado para peregrinações em determinadas épocas do ano, impôs-se a necessidade de se construir uma infra-estrutura de apoio para receber a grande quantidade de romeiros que sobe a Serra e ali permanecem por largo período de tempo. Esse novo complexo, ao ser concluído, longe de prejudicar o acervo já existente, só enriquecê-lo, graças a maneira criteriosa com que foi executado.
Devem ser destacados por uma questão de justiça os nomes de frei Rosário Joffily, DD. Reitor do santuário, e do arquiteto Dr. Alcides da Rocha Miranda, os quais, com grande sensibilidade, bom senso e dedicação, dirigiram as obras de ampliação do serviço.
Inserido e m contexto paisagístico de admirável beleza, o conjunto arquitetônico da Serra da Piedade é, pois, um exemplo vivo do diálogo harmonioso entro dois dos melhores períofdos representativos da arquitetura brasileira.

 

A Ermida

 

A ermida, situada no ponto mais alto da Serra da Piedade, esta implantada sobre um adro, quatro degraus mais elevado que o amplo platô de terra e de seixos a sua frente. Esse platô se estende por cem metros, até encontrar imponentes rochas que servem de plano de fundo para a cena do calvário a ser ali erguida.
Esse espaço fornecido à igreja era ocupado, inicialmente, por construções muito precárias, destinadas a um pequeno comércio voltado para a venda de alimentos , bebidas e artigos religiosos, que servia de apoio as romarias. O piso era mais elevado que o atual, porém, com a abertura e pavimentação da estrada ligando a rodovia ao alto da Serra foi rebaixado, deixando a ermida com cota mais alta e com certo sentido de desproporção em relação ao entorno. Assim sendo, a criação do adro de pedras se impôs por necessidades não só funcionais, mas também estéticas.
A planta da ermida é bastante simples, apresentando nave única e capela-mor. Estas seriam, provavelmente, o núcleo da parte mais antiga, o qual veio a conatruir o eixo dominante do conjunto que foi sendo formado ao seu redor. Aí se instalou, ainda no séc. XVIII, um ermitério em torno de um pequeno pátio, à guisa de claustro, e contíguo à parte superior da capela-mor.
Em 1818, por ocasião de sua viagem pelo Distrito dos diamantes, Saint-Hilaire dá o seguinte depoimanto:
“No alto da Serra da Piedade foi construída uma capela muito grande, contra a qual se apóiam à direita e à esquerda, edifícios onde residem eremitas da montanha e peregrinos que a devoção leva a esse lugar. Todas essas construções são de pedra e datam de 40 anos atrás.”

O escritor Antônio Olyntho dos Santos Pires, que assinava com o pseudônimo de Lúcio Flória, referindo-se ao contrutor da ermida, informa que:

 

“resolvendo fazer uma vida de ermitão, Bracarena construiu também nos flancos da egreja uma casa, dividida em grande numero de pequenas cellas, que não só servisse de abrigo aos peregrinos que lá ião periodicamente ter, como residência para os eremícolas que quisessem se dedicar, como elle, ao culto da Virgem Divina, naquela solidão a que se acolhera. O eremitério existe ainda …”

 

Não só na capela-mor, nave e suas laterais, mas também no espaço correspondente as sacristias, e em toda a parte posterior da igreja, está a construção feita por Bracarena.
Uma entrada independente, no flanco sul da ermida, leva um corredor em forma de “U”, para o qual se abrem as antigas celas. O corredor circunda um espaço aberto, o claustro, cujo quarto lado é fechado pela parede da capela-mor. Os seixos rolados com quem é calçado o piso desse claustro, conferem ao ambiente um ar de rústica simplicidade.
Atualmente, as grandes janelas que separam o claustro dos corredores estão separados por “blindex” e devidamente protegida com telhadinhos, com característicos beirais de fileiras duplas de telhas, denominados beiras-seveiras(ou beiras sob beiras ou ainda beiras sobeiras).
Ladeando a nave única, encontram-se duas pequenas galerias de menor comprimento. No início, esses espaços eram destinados à pousada dos romeiros, de um lado, e, do outro, à residência dos eremitas, havendo, inclusive, uma escada para um portão. Os compartimentos eram extremamente simples, com chão de terra batida, e a cobertura, de telha-vã. Igualmente foram anexadas às fachadas duas torres sineiras de base quadrada, salientes em relação ao retângulo inicial da planta.
Adjacentes à capela-mor, também estão dois espaços, que hoje cumprem a função de sacristia e são, por sua vez, ladeados por dois outros espaços, aumentando, mais ainda, a largura do monumento, que a partir daí, passa a conter internamente o citado convento (ou eremitério).
A simetria apresentada pela planta do conjunto, organizado em torno do eixo longitudinal formado pela sucessão de nave/capela-mor/claustro, se manifesta,, ainda, em sua volumetria, com quase idêntica articulação de massas e vãos, nos lados norte e sul.
A alvenaria de pedra das paredes – passível de ser observada em fotos antigas pertencentes à Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – apresenta-se revestida e pintada de branco em todo o exterior. Um telhado de duas águas cobre todo o monumento, sem diferenciação de planos, desde os espaços centrais e de maior pé-direito até os espaços mais periféricos e de menor altura. O contraste entre a continuidade de tratamento da cobertura e a fragmentação, o recorte e o escalonamento da massa construída, na qual se apóia, conferem ao monumento um efeito plástico bastante interessante. Todos os beirais são arrematados com beiras-seveiras.
A fachada principal, voltada para o oeste, segue a composição tradicional das igrejas mineiras construídas no mesmo período, apresentando, lateralmente, as duas torres sineiras já citadas que conferem maior destaque ao frontispício, ampliando-lhe as dimensões, tanto horizontal com verticalmente.
Hoje as torres são idênticas – antes, na do lado sul notava-se dois vãos – e têm aberturas dos sinos em arco pleno, sem molduras, nas quatro faces. Os telhadinhos pontiagudos de quatro águas, com forte galbo ao sabor oriental, receberam recentemente os arremates superiores característicos, denominados grimpas que foram acrescentadas às torres da ermida servem, também, como pára-raios.
A arquitrave que divide horizontalmente a fachada é reta, com cimalhas (molduras) de perfil simples, feitas de argamassa, não apresentando grande balanço. As quatro pilastras, igualmente feitas de argamassa, com pequena saliência e mostrando capitéis simples, marcam os cunhais e a junção das torres com o corpo central do frontispício. As cimalhas e as pilastras são pintadas na cor ocre. O frontão, sem qualquer tipo de abretura, é rematado por beiras-seveiras colocadas inclinadas e coroado com cruz simples.
A porta almofadada, de verga reta, é hoje o único vão plano da fachada. Mas uma fotografia antiga pertencente aos arquivos da SPHAN, mostra, além da porta, cuja verga era curva, um óculo acima da mesma, na chamada sobreporta, e, nas laterais, dois nichos simetricamente dispostos. Internamente, a porta conserva a verga curva da construção original.
Os demais vãos do conjunto, atualmente com vergas retas, têm tratamento muito simples: as janelas são do tipo guilhotina e as portas, como as mais antigas, são fechadas por tábuas verticais em “saia e camisa” (tipo calha) e pintadas em vermelho “sangue de boi”.

 

O Interior

 

A nave não tinha, no início, qualquer comunicação com as galerias laterais. A ligação entre esses espaços básicos foram feitas no sentido de ampliar o interior da capela, permitindo melhor circulação de visitantes. Hoje, a galeria da direita está dividida em duas partes por uma grade de madeira torneada (cancelo). Aí se encontra um tabernáculo de madeira, que, apesar de antigo, não pertence originalmente à ermida. A galeria da esquerda tem um pequeno altar, onde fica depositado o Santíssimo, e, em um tablado sob a janela, a pia batismal de madeira, de fatura recente e pintada de cor verde claro, reproduzindo o modelo encontrado nas redondezas.
A nave se constitui de duas partes: uma referente a entrada – o átrio – e outra, à nave propriamente dita. A diferenciação entre ambas se faz principalmente em relação à altura (pés-direitos), sedo mais baixa na entrada, porque corresponde ao coro. Também o piso se apresenta diferenciado, sendo de blocos regulares de pedra no átrio, e de madeira formando campas (sepulturas), no recinto maior. Eram usuais, na época, os sepultamentos dentro da igreja, de pessoas que faziam jus a tal honraria. Diga-se de passagem, que aí se encontram os restos mortais do próprio Bracarena.
Há que se ressaltar, inclusive, além da funcionalidade das campas, sua forte presença no ponto de vista plástico, por introduzir um reticulado bem marcado, com seu engradamento de madeira escura, que emoldura as tampas em três tabuas de madeira clara. Sem nenhum adorno ou inscrição, essas campas substituem as primitivas e, hoje, são elementos definidores da formação da nave, contando-se quatro campas na largura e cinco no comprimento, em um total de vinte.
Modernamente, em restauração feita pela Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, foi adotada, para separar a entrada do corpo da nave, divisória de “blindex”, à feição de tapa-vento, e que, a pesar de sua transparência e neutralidade, vem acentuar de maneira discreta a subdivisão existente.
O coro, sobre a entrada e sem apoios intermediários, mesmo acompanhando as linhas retas e a simplicidade interior, destaca-se por sua balaustrada de madeira escura e torneada.
As paredes, revestidas e pintadas de branco, assim como o forro, de forma alteada, e, constituído de tábuas largas em azul bem claro, conferem a unidade desses espaços, cuja característica principal é a simplicidade e o despojamento, sem qualquer tipo de ornato, a não ser as pequenas cimalhas laterais que arrematam o forro junto às paredes. Assim sendo, entre as cores claras dominantes, o destaque fica para o coro e o piso.
Em contraponto a essa singeleza descrita anteriormente, a capela-mor se apresenta ricamente ornamentada, com retábulo de grande plasticidade e pintura policromada. A separação da nave se faz pelo arco-cruzeiro, que acentua a importância da capela-mor, de vez que enquadrada perfeitamente o altar e seu retábulo, não só pela diferenciação de cor – bege – mas também por sua forma em arco pleno, que serve de moldura para a perspectiva dominante de um observador situado na nave.
A capela-mor tem dimensões exíguas, com o piso de madeira escura e tábuas largas, o qual, em seu primeiro terço, acompanha o nível da nave. Nesse espaço, estão as portas de acesso às sacristias. Em seguida, quatro degraus, ocupando toda a largura, levam ao altar-mor.
O forro, em abóbada de berço, também de tabuas largas pintadas de azul claro, termina lateralmente em cimalha de perfil simples, com solução análoga à da nave.
O retábulo, em estilo rococó, e a imagem de Nossa Senhora da Piedade, entronizada no nicho central, constituem os únicos elementos de valor artístico do conjunto e contribuem para conferir força plástica ao interior da capela.
Quanto à sua composição, o retábulo mostra estruturação bem marcada, podendo ser dividida em três partes horizontais: o embasamento, no qual deve ser inluída a mesa do altar, de contorno movimentado; o corpo propriamente dito, contendo dois nichos menores incrustados nos painéis laterais que ladeiam o vão central mais amplo; e o coroamento, rematando seu fecho por medalhão emoldurado por “rocailles” douradas onde se lê “Mater Dolorosa”.
As colunas mestras, com capitel coríntio, fuste canelado e marcação do terço inferior, são os elementos arquitetônicos de maior destaque, não só pela volumetria e pelo avanço que apresentam em relação ao plano do nicho central como, sobretudo, por se responsabilizarem pela função de demarcar vertical e lateralmente o conjunto do retábulo, promovendo a unidade entre suas divisões horizontais. Para isso as colunas-mestras se prolongam verticalmente, através do embasamento e do coroamento por meio de pilastras misuladas (de perfil curvo), que se apresentam mais robustas e destacadas, à feição de plinto, junto ao piso, sendo mais leves e com perfil sinuoso junto ao forro. Ladeando o nicho central e em contraponto com as colunas-mestras, destacam-se as pilastras formadas com mísulas, cuja decoração em “rocailles” se estende por todo o arco pleno que remata o referido nicho. Essas pilastras, assim como as colunas mestras, avançam verticalmente, através da faixa horizontal correspondente ao coroamento até o forro, após mostrarem uma interrupção que permite o lançamento de um outro arco pleno, robusto e bem marcado, pintado em vermelho, que emoldura superiormente o nicho central e serve de apoio ao elemento escultórico do fecho. Apesar do arco se apresentar como o mais forte elemento de ligação entre as partes laterais do retábulo, ele não encontra correspondência nos elementos que formam o corpo propriamente dito do retábulo.
Os elementos ornamentais da talha, constituídos principalmente de molduras, mísulas, volutas, tarjas e folhas de canto, marcam, com certa economia, as principais componentes do retábulo (frontal do altar, sacrário, nichos, pilastras e colunas), sem carregar a composição ou tirar-lhe a clareza construtiva. Apresentam relevo contido, mas que, mesmo assim, permite acentuar a forte presença do ouro que os cobre e se destaca em fundo azul claro, de pintura faiscada. Os nichos laterais apresentam, em seu interior, pintura com motivos florais (rosinhas de Malabar).
Considerando-se o bem conhecido estudo sobe os retabulos brasileiros, de autoria do arquiteto Lúcio Costa,esse, da capela mor do santuário da Serra da Piedade, tendo em vista as características apresentadas, pode ser incluído entre as manifestações barrocas brasileiras do denominado 4º período, predominantes na segunda metade do século XVIII e no início do século XIX e correspondentes ao “estilo mineiro da última fase”.
Há que se destacar ainda a presença, na capela-mor, de duas janelas laterais, protegidas por modernos vidros “blindex”, assim como um óculo na parede do fundo, atrás do nicho central, promovendo a incidência direta, sobre o retábulo e a imagem da Padroeira, da luz natural, que lhes realça a composição e a policromia, além de enfatizar sua importância plástica para a ambiência mística do interior do santuário.
A imagem da padroeira, em estilo barroco, é peça de indubitável valor artístico, não só pela riqueza de composição como pelo acabamento precioso e de grande expressividade.
Sua procedência e autoria não podem ser comprovadas:

 

“Nada dizem os documentos encontrados a respeito da imagem, se feita no Brasil ou se viera da Metrópole”.

 

Segundo a bibliografia mais antiga que registra a tradição oral,

 

“A imagem que ate hoje ali se venera – e que tem fama de milagrosa – é a mesma que bracarena mandou vir de Portugal.”

 

No entanto, a bibliografia mais recente atribuiu a Antônio Francisco Lisboa a feitura da imagem. Encontramos essa afirmação só na palavra abalizada de arquiteto Lúcio Costa, mas também no excelente “Dicionário de Artistas e Artífices dos Séculos XVIII e XIX em Minas Gerais”, de Judith Martins, como ainda, no trabalho do Professor Edmundo Bezerril Fontenelle, “O Aleijadinho na Serra da Piedade”, no qual o autor prova essa autoria, apontando na escultura as características mais marcantes do trabalho deste célebre artista.
Colocada em nicho central do retábulo e sobre um pedestal, sua formas são exaltadas pela luz que jorra da janela circular, situada na parede posterior da capela-mor. Essa luz enfatiza o efeito barroco de profundidade, pelas mutações que opera sobre as superfícies da imagem constituída de uma imagem tripartida: a Virgem Dolorosa, tendo deitado em seu regaço o filho morto, cuja cabeça repousa sobre um querubim.
Esculpida em cedro nacional e medindo 1,25m metros de altura por 1,00m de largura, apresenta-se em composição piramidal, tendo como vértice a cabeça da Virgem, cujo olhar compungido se dirige à cabeça inerte do Filho à sua esquerda. Levemente diagonal em relação à base, o corpo de cristo mostra-se com uma incorreção anatômica, com o objetivo de ser contido no colo da mãe, que a pesar de seu modelado poente, não tem espaço suficiente para conter um corpo viril como o sugerido pelo tronco que ele apóia.
Nossa Senhora da Piedade está vestida de maneira sóbria, e as varias restaurações por que passou deixaram à mostra, no panejamento, uma estamparia floral, a ouro, evidenciando o apuro e cuidado com que foi executada.

 

A Igreja Nova

 

Integrada no conjunto da Serra da Piedade, localiza-se a igreja nova, em platô de cota mais baixa que o conjunto mais antigo. Uma outra igreja, de autoria do arquiteto Alcides da Rocha Miranda

 

“… arquiteto do Patrimônio Histórico que há muitos anos acompanha e protege a sobras da Serra da Piedade (e que) percebeu com justa sensibilidade que, se quisermos ser fiéis à índole do lugar, teremos de somar cultura e presença do povo.”

 

A nova igreja é suficientemente ampla para abrigar 3000 pessoas e tem função múltipla. Segundo Frei Rosário Joffily,

 

“fôssemos alemães e diríamos de um só fôlego: igreja-abrigo-auditório-discoteca”.

 

O acesso se faz por uma estrada subsidiária da principal, que conduz ao topo da serra. Essa estrada foi implantada de modo a conservar as formações rochosas, que mostram, quase junto a nova igreja, um conjunto de maciços, houve o deslocamento de uma placa de pedra, cuja falha foi substituída por um mosaico representando Cristo ressuscitado.
Uma esbelta cruz metálica assinala o início do novo adro. Este tem proporções tão grandes que, além de conter o grande contingente de romeiros na época do jubileu, sem duvida constitui elemento de transição entre a imponência da natureza circundante e a grandiosidade da obra construída.
A igreja esta implantada em amplo espaço, delimitado, em um dos lados, por um muro de arrimo. Sua arquitetura é definida por um conjunto de planos que, basicamente, criam uma cobertura de concreto armado, em forma de pirâmide pentagonal, sobre a nave, articulada com dois outros planos, com inclinações ascendente, na entrada, e descendente, na parte posterior. Suas arestas multidirecionais são quase uma transcrição geométrica das formações geológicas pontiagudas que constituem o plano de fundo.
Internamente três dos planos d cobertura são em colméia, outro dois são lisos e se apóiam em grandes vigas que descem do vértice até os pilares. Foram criados pequenos elementos de transição entre essas vigas e os pilares, proporcionando uma abertura em toda a periferia, por onde entra uma faixa contínua de luz, que ajuda a dar leveza a cobertura. No alto, uma diferença de planos permite, também, um jorro de luz natural, que incide sobre o altar. Com relação às vedações , as paredes são cobertas por azulejos decorados, mostrando uma composição baseada em motivos teológicos, e, também, “blindex”, que garante a transparência desejada e a conseqüente visibilidade da belíssima paisagem do entorno.
Merecem destaque as preocupações que presidiram ao projeto, isto é, que a construção, em estilo contemporâneo e de linhas arrojadas, não competisse com a antiga ermida – é impossível a visão concomitante de ambas – e que houvesse a integração perfeita com a paisagem. Essa integração se fará tanto pelo uso do material local e da cor – com a predominância de ocres e ferruginosos – em elementos decorativos (azulejos), como, ainda, pela sábia decisão de deixar a natureza agir sob os materiais novos, principalmente o concreto, conferindo-lhes coloração nova e neutralizando-os.
Uma simples reflexão sobre as soluções arquitetônicas de ambas igrejas permite que sejam feitos inúmeros confrontos, mas os mais significativos se referem, basicamente, a suas formas e funções especificas, já que, estilisticamente, ambas trazem as marcas, em seus elementos construtivos, dos respectivos séculos em que foram construídas: a ermida, respeitando o estilo das construções em voga nas minas do século XVIII, e a nova igreja, em perfeita harmonia com os postulados da arquitetura moderna.
Enquanto a antiga se mostra pequena, fechada, introvertida, a igreja auditório se apresenta em grandes proporções, aberta a paisagem circundante, extrovertida.
No que diz respeito à função, a ermida em seu início, atendia aos ofícios religiosos e às romarias, adquirindo também, com o transcorrer do tempo, valor histórico e simbólico. Já a igreja nova foi concebida com pluralidade de funções, inclusive para atender, além do culto religioso, a funções culturais, destacando-se apresentações musicais, favorecidas tanto pela excelente acústica do monumento quanto pelo envolvente silencio local.

 

Os Anexos

 

A casa dos romeiros

 

À direita do adro, em depressão do terreno, formada pela retirada de material feita pelos eremitas, existe um anexo para abrigar os peregrinos. Com o intuito de serem evitadas interferências visuais no conjunto tombado, o projeto previu o nível da cobertura na mesma cota da praça fronteiriça à capela, constituindo-se em seu prolongamento, acrescentando-lhe cerca de 1000m².
Para dar unidade ao conjunto, o revestimento dessa cobertura é feito com seixos rolados, elementos próprios da região. Essa edificação te capacidade média para 300 pessoas.

 

A Casa de Orações

 

A sete metros de distancia da capela, está localizada a Casa de Orações, que conta em seu programa com 33 apartamentos com capacidade para três pessoas em cada um.
O programa prevê, também, ampla biblioteca, cujo acervo será constituído, principalmente, de literatura religiosa ecumênica.

 

A casa do Padre

 

Ocupando, inicialmente, uma galeria lateral à nave da ermida para seus aposentos pessoais – galeria essa que servia de habitação para os ermitãos – frei Rosário Jpffily encontrava-se ate seu falecimento morando em uma pequena casa ao ladoda igreja. Essa casa é constituída de compartimentos essencias: quarto, biblioteca, cozinha, banheiro sala de refeições e uma sala de entrada, onde moram atualmente Pe. Marcos Antonio (reitor) e Pe. José Emídio.
A construção e singela, permanecendo fora do ângulo de visão, encravada na vertente da montanha.

 

O restaurante

 

Próximo à casa do padre, encontra-se amplo restaurante, também incrustado nas encostas da serra, com grandes janelas que abrem para a paisagem circundante, o que lhe confere uma ambientação privilegiada.
O “hall” de entrada, onde está localizado um balcão para a venda de artigos religiosos, conduz à sala de refeições, que comporta dois setores separados por divisórias, sendo que o da extremidade tem, também, uma lareira. Os serviços da cozinha se fazem a nível inferior, onde ainda se encontram as instalações sanitárias sociais.
A cobertura plana, de concreto aparente, foi preparada para receber e acumular água de chuva, com o intuito de criar um elemento de neutralidade, através de um espelho que reflete o céu.

 

O observatório astronômico

 

O observatório astronômico da Universidade Federal de Minas Gerais localiza-se um pouco a diante da igreja nova, numa pequena plataforma. Uma interessante estrutura em forma de tronco de cone abriga, no primeiro pavimento, sala, cozinha, três pequenos quartos e banheiro; no segundo, um laboratório fotográfico e outro pequeno quarto; e, no terceiro, o telescópio propriamente dito. Uma escada metálica em caracol interliga os três níveis.Uma parede circular, de pedras empilhadas, colocada envolvendo um trecho da base do cone, permite a expansão da sala de estar, no primeiro nível do segundo pavimento, voltado para a magnífica vista circundante.
Externamente, a alvenaria do tronco de cone mostra faixas inclinadas, ligeiramente reentrantes, que, de duas em duas, servem não só para conter e disciplinaras pequenas janelas como para direcionar o olhar do observador para a bonita cúpula semi-esférica que serve de cobertura para o observatório. O revestimento da cúpula, de placas de cobre, mostra sistema de assentamento, à feição de meridianos, que reforça a verticalidade do monumento.
Perto do obesrvatorio astronômico se encontra, ainda, alem de uma pequena estrutura cilíndrica, também coberta com cúpula e que continha o antigo observatório, uma torre de rastreamento de aviões, pertencente ao Ministério da Aeronáutica.

 

O Asilo São Luiz.

 

Por uma estradinha, que saindo à esquerda da estrada que conduz a Caeté, no distrito de Penedia, e se estende por entre a mata, alcança-se o Asilo São Luiz. O local é extremamente aprazível, com arvoredos, formações rochosas de pequeno porte e muitas flores.
Fundado em 25 de agosto de 1878 por monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro, para acolher meninas órfãs, filhas de mulheres escravas (“ingênuas”), nascidas após a aprovação da Lei do Ventre Livre, em 1871, pelo referido monsenhor e que conta, atualmente, com uma comunidade de 16 membros.
Cinqüenta alunas internas e vinte e duas externas, com idades que variam de 7 a 12 anos, recebem instruções da primeira a quarta series do primeiro grau, sendo que as externas recebem, também, alimentação. O Clube de Mães reúne-se às terças-feiras, quando são ensinados bordados, crochê e tricô, prevendo-se, para breve, ensino de tapeçaria.
O conjunto de edificações pertencentes ao asilo compõe-se de seis blocos, sendo três mais antigos – quase desativados, e onde se pode observar a organização em forma de claustro, isto é, avarandados em torno de um jardim – e três mais novos, onde funcionam a escola, clausura e o refeitório. A capela mostra construção nova, havendo uma casa de retiro separada das demais.
Há, também, uma pequena loja para venda de licores e doces, cuja renda é destinada à manutenção das crianças.

 

 

Segundo Saint-Hilaire, “em frente a capela vêem-se rochedos, no meio dos quais foram colocados crzes destinadas aos “passos” que se celebram na semana santa” (SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagens pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Trad. São Paulo: Nacinal, 1941.(série brasiliana, 210), p.115.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Op. Cit.,p.114.
PIRES, Antônio Olyntho dos Santos. A Serra da Piedade, Revista do Archivo Público Mineiro, Bello Horizonte: Imprensa Official de Minas Geraes, v. 7 n. 3/4, jul./dez. 1902, P. 821.
COSTA, Lúcio. Obras completas, Belo Horizonte: Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, 1961, p.85.
MENEZES, Ivo Porto de. Nossa Senhora e Serra da Piedade. Estado de Minas, Belo Horizonte, 30 abr. 1971.
ALMEIDA, Lúcia Machado. Figuras misteriosas do século XVIII em Minas Gerais, revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, v.6, 1950, p.269.
Em 1972, Lúcio Costa, como diretor da divisão de tombamentos do IPHAN, teve a oportunidade de identificar, através de fotografias, uma imagem original de Aleijadinho no santuário da Serra da Piedade. (Of. N. 479, de28-02-1972, do diretor do DRC do IPHAN para o diretor adjunto do departamento e assuntos culturais do MEC).
“ 1) Asas do querubim com penas fitomórficas ou em forma de folhas de acanto; 2) os olhos do querubim em forma de mongolóide e certo “ar” de sorridente; 3) narizes com pontas ligeiramente arrebitadas; 4) unhas dos pés e das mãos com formas geométricas, quadradas ou trapezoidais; 5) sapatos da Santa trocados de pés; 6) cabelos de Cristo “partidos” ao meio, mas apresentando mechas simétricas na testa, como volutas invertidas; disposição e arranjo característico dos cabelos; 7) polegar longo, com implantação de unha ligeiramente defeituosa, das mãos do Cristo; 8) mechas de cabelo da barba dispostas transversalmente à linha do queixo e não ao longo deste, que é comum em outros escultores de obras semelhantes; cabelos da cabeça com mechas movimentadas; 9) barba terminada em dois rolos encaracolados, como se frisados e, ainda, separados um do outro por intervalo sem barba, pele raspada. 10) bigode em linhas flamejantes, com mechas finas me forma de espinhos; 11) olhos sempre cavos, com pálpebras bem largas; 12) bordos das pálpebras superiores ultrapassando o ponto de junçao com as inferiores; 13) panejamento típico, com dobras de arestas salientes, em ângulos quase sempre retos. Panos aderentes à pele, como se fossem molhados; 14) ponta do queixo terminada em dois pomos salientes e separados; 15) saliência na articulação do dedo grande do pé com o metatarso, formando forte joanete; 16) mãos e dedos de forma quadrada e 17) pelas costas, a imagem apresenta uma dobra larga no manto, como uma faixa descendo da cabeça até os pés” in FONTENELLE, E. B., Op. Cit., p.25.
Depoimento de Frei Rosário Joffily, in MIRANDA, Alcides da Rocha. Convivência em harmonia com o passado, Arquitetura Revista, Rio de Janeiro: publicação semestral da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, n. 4, 1986, p.20.
MIRANDA, Alcides da Rocha, Op. Cit. P. 20.

 

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