Geografia

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Situada nas proximidades de Belo Horizonte, a Serra da Piedade apresenta-se como um mportantíssimo marco histórico, religioso, paisagístico e turístico.
Além disso, a área da Serra pode ser percebida como um microcosmo, uma verdadeira síntese da região central de Minas, pois nela se encontram, lado a lado e em integração, a montanha, os vales, as rochas e as formações vegetais do campo, da mata e do cerrado.

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Para que esse importante patrimônio, que é a Serra da Piedade, possa continuar a desempenhar e a fortalecer essa função de marco e síntese da historia, da geografia e da cultura de Minas Gerais, é necessário despertar a consciência não só daqueles que a visitam, mas também, dos administradores, tanto do município quanto do Estado, além de todos aqueles que se voltam, em números cada vez maiores, para a valorização e a preservação do meio ambiente. A elevação denominada Serra da Piedade situa-se no atual município de Caeté, distando cerca de 30 km, em linha reta, do centro de Belo Horizonte, a leste desta cidade. Está localizada entre 19º 48’ e 19º 50’ de latitude sul, e entre 43º 39’ e 43º 42’ de longitude oeste. Seu ponto culminante está cotado m 1746m acima do nível do mar. No sentido norte-sul, o conjunto da Serra da Piedade estende-se por, aproximadamente, 2 km, e, no sentido leste-oeste, por cerca de 4 km. Para a população que vive na região, a Serra da Piedade é apenas a elevação maior, formando um bloco maciço, com as medidas acima referidas e apresentando cerca de 500 m de desnível do sopé ao ponto mais alto. Para os primeiros viajantes das regiões das Minas, para os quais Serra era importante referencia, o conceito parecer ter sido o mesmo:
“É somente no lugar em que as matas deixam de aparecer e onde a terra não mais se presta à cultura, que a montanha toma, na região, o nome de Serra da Piedade.” (Saint-Hilaire/1974)
No entanto, nos mapas, o conjunto denominado Serra da Piedade é bem mais extenso. Embora o limite a leste coincida com aquele a que se refere a população local, o limite a oeste fica muito mais distante, atingido o dobro da extensão anteriormente citada. Á área tombada pela Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, do Ministério da Cultura, restringe-se à área menor.
A Serra da Piedade situa-se na unidade morfológica denominada Quadrilátero Ferrífero. Essa unidade abrange, no seu todo, cerca de 7000 km², ocupando uma parte da área central do Estado de Minas Gerais. Trata-se de uma unidade territorial complexa, do ponto de vista geológico e estrutural, guardando, até hoje, muitos enigmas a serem explicados. O Quadrilátero Ferrífero apresenta como limites: ao norte, o alinhamento da Serra do Curral, de direção geral sudoeste-nordeste; ao sul, a Serra de Ouro Branco; a oeste, a Serra da Moeda e, a leste, o conjunto formado pela Serra do Caraça e pelo inicio da Serra do Espinhaço. Em todas essa elevações, com exceção do Espinhaço, predominam as rochas da chamada Série de Minas, ou Supergrupo Minas. O Quadrilátero Ferrífero formava, em épocas remotas, uma espécie de barreira que limitava, ao sul, o grande mar interior de São Francisca, origem atual da bacia sedimentar são franciscana.

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Geomorfologia.

Do ponto de vista da geomorfologia microrregional, a Serra da Piedade faz parte do conjunto denominado genericamente Serra do Curral, medindo cerca de 95 km a partir das proximidades da represa Benfica, no rio São João, que banha a cidade de Itaúna, e alcançando, na extremidade nordeste, o município de Caeté. Assume denominações locais como Serra de Itatiaiuçu, Serra Azul, Fecho do Funil, Três Irmãos, Serra Rola-Moça, Serra da Mutuca, do Curral, Taquaril, Serra da Piedade e Morro da Descoberta. Além desses nomes mais conhecidos, existe enorme variedade de outras designações locais, tanto populares quanto registradas nos mapas.
Esse grande alinhamento apresenta características geológicas, estruturais e topográficas semelhantes. O topo é revestido por uma cobertura de canga, espécie de couraça ferruginosa, formada de sesquióxido de ferro, que desempenha a função de proteção contra a erosão. Ela apresenta fendas e pequenas cavidades, tendo Rizzini (1966) usado a denominação “canga couraçada” para diferencia-la da “canga nodular”:
“A concreção ferrosa forma uma couraça, ou lajeado , sobre o substrato, mas é lacunosa como lava vulcânica, isto é, mostra-se repleta de cavidades. As plantas intrometem as raízes nessa fendas, mas algumas permanecem por cima da canga sem penetra-la”.
Na Serra da Piedade, como no restante do Quadrilátero Ferrífero, a canga couraçada aparece sempre acima de 1200 m. já a canga nodular “ocorre em altitudes inferiores a 1000 m.” (Rizzini, 1966)

Vegetação.

A vegetação na Serra da Piedade apresenta as mesmas características do restante da Serra do Curral, estando, no entanto, bastante mais preservada. É a vegetação típica das áreas de altitudes elevadas. À medida que se sobe, a vegetação diminui de porte. No sopé, tem-se a mata fechada de encosta, remanescente da floresta tropical que recobria extensa área de Minas. Essa mata, apesar de ter sido continuamente devastada, acha-se em processo de recomposição. A partir desse nível, a vegetação torna-se mais aberta, menos densa e de menor porte, transformando-se, também qualitativamente, com espécies que não aparecem na mata. No topo, a modificação é radical: as áreas cobertas pela canga suportam uma cobertura vegetal típica, classificada como campo de altitude ou campo rupestre. Onde afloram a rocha nua, sem a presença de solo, notam-se poucos vestígios de vegetação, que só aparecer pontualmente nas frestas onde há maior umidade e rochas em inicio de decomposição. Na região do entorno encontram-se manchas de cerrado.

Aspectos climáticos.

O clima da região montanhosa do Quadrilátero Ferrífero apresenta características não muito diferenciadas. Pode ser, a grosso modo, classificado como subtropical de altitude (Vianello Maia/1986). Apresenta temperatura media do mês mais frio, geralmente julho, inferior a 18ºC, e temperatura media do mês mais quente sempre inferior a 22ºC.
A pluviosidade na região apresenta dois períodos distintos: um, chuvoso, correspondente aos meses de primavera-verão, e um, seco, correspondente aos meses de outono-inverno. A concentração maior de chuvas ocorre nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, quando se precipita cerca da metade da pluviosidade total anual, acima dos 1500mm.
As temperaturas na área central de Minas sofrem forte influencia da altitude. Na região de Cate, a temperatura media anual situa-se em torno de 19ºC. Na Serra da Piedade, a media é ainda mais baixa, pois a medida que a altitude aumenta, há decréscimo na temperatura. Sabe-se que, para cada 100m que se sobe há, em média, uma redução de 3ºC. Assim é possível supor que, no alto da Serra, a média anual de temperatura se situe em torno de 16ºC. A falta de um posto metereológico local não permite precisão maior quanto aos dados climáticos. Mas, de acordo com observações dos que “vivem a Serra”, a pluviosidade é mais lata que nas regiões próximas e a temperatura absoluta pode chegar bem próximo de 0ºC, nas noites mais frias de inverno.
Em relação à insolação média anual, a região próxima a Serra apresenta em torno de 2400 horas anuais de sol. No entanto, apresenta-se, durante boa parte do ano, envolta em névoa úmida, fato que ocasiona sensível redução do numero de horas sol. Quanto à chamada bruma seca, a Serra, nas suas partes mais altas, não é praticamente atingida pela mesma. Até mesmo nos meses de agosto e setembro, época das queimadas, a bruma seca não chega a atingir o topo. Por seu turno, a paisagem em níveis topográficos mais baixos, quando observada do alto da Serra, fica, nessa época, envolta em densa névoa, que recobre vasta região.
A posição da Serra da Piedade e de todo o alinhamento da Serra do Curral, de direção quase oeste-leste, faz com que essa cadeia montanhosa funcione como anteparo em relação ao curso normal das frentes polares vindas do sul, provocando a ascensão dessas massas de ar que, no contato com camadas superiores da atmosfera, mais frias, originam precipitações leves, maior umidade atmosférica e a formação de névoa úmida. Essa situação é típica das regiões de montanha, podendo ocorrer em qualquer época do ano, sendo, entretanto, mais comum no inverno.
Já as chuvas de verão vêm do norte e noroeste, trazidas pelas linhas de instabilidade tropicais. Nessa estação do ano, a região Sudeste assume a posição de contato entre o ar quente da zona tropical, que caminha para o sul, e o ar frio da frente polar, que avança em direção às regiões equatoriais (Nimer, 1977). Como conseqüência desse encontro de massas de ar diferentes, a região Sudeste é submetida, nessa época do ano, a ventos e chuvas, algumas vezes acompanhados de granizo. Geralmente, as chuvas caem sob forma de pesado aguaceiro e são de curta duração. No entanto, se a frente polar consegue atingir a região e aí estabilizar-se por algum tempo, as chuvas poderão durar vários dias, até que a frente se desloque ou seja dissipada.
As chuvas da Serra da Piedade podem ser, então, classificadas em dois grandes tipos: as do verão, causadas pela circulação atmosférica geral, e as chuvas orogênicas, mais leves e de curta duração, provocada localmente pela presença da barreira montanhosa.

O perfil da Serra.

Observando-se o perfil da Serra da Piedade, é fácil notar que a face voltada para o sul é muito mais íngreme que a face norte. Na face sul, a cobertura de canga é pouco significativa, sendo muito mais extensa na outra vertente. Além disso, a vertente sul é muito mais úmida por receber mais diretamente os ventos frios e úmidos da frente polar. A vegetação é mais densa, de maior porte, e a espécies apresentam diferenças em relação àquelas da outra face.
A essas características acrescenta-se mais uma. No hemisfério meridional, nas vertentes voltadas para o pólo sul, os raios solares incidem obliquamente, sendo essas vertentes, portanto, mais frias e úmidas. Em Minas e São Paulo e, talvez, mesmo em outras regiões do país, são chamadas de “face noruega”.
Todos esses fatores contribuem para que a vertente sul, na Serra, seja menos acessível e menos conhecida que a norte.
Uma área situada em região tropical, com as características físicas da Serra da Piedade, isto é, forte declividade, cobertura vegetal pouco densa, alta pluviosidade concentrada em alguns meses caindo, muitas vezes, sob a forma de fortes aguaceiros, está normalmente sujeita a intenso processo erosivo. Se a esses elementos acrescentar-se a ação antrópica, responsável por desmatamento e queimadas, alem do fato de ser uma área de mineração, a região poderia apresentar-se como altamente afetada pela erosão. No entanto, tal não tem ocorrido, em grande parte, devido ao fato do tombamento da Serra ter antecedido o intenso processo de ocupação que se verificou em áreas semelhantes do Quadrilátero Ferrífero. As minerações de ferro foram desviadas, bem como os poucos grupos existentes.
É importante acrescentar que as regiões de montanha apresentam um frágil equilíbrio nos seus ecossistemas, devendo receber um manejo adequando. Até mesmo as áreas periféricas ao espaço montanhoso, objeto dessa analise, devem receber um tratamento diferenciado, de acordo com normas que deverão ser claramente estabelecidas na legislação municipal sobre o uso do solo.

Aspectos humanos.

A Serra da Piedade localiza-se em uma região onde teve inicio o povoamento de Minas Gerais. O fato da Serra estar situada na mais importante região produtora de ouro, aliado à importância, fez com que se tornasse importante marco, citado por todos os que por ali passava. Vários viajantes estrangeiros deixaram por escrito referencias à Serra. Já como o nome de Serra da Piedade, foi citada nas obras de Eschwege, Saint-Hilaire, Burton, Bunbury e Gardner, que aqui estiveram no decorrer do século XIX.

Os caminhos.

No Brasil Colônia, o território que hoje constitui Minas Gerais era cortado, de norte a sul, por dois eixos viários principais, separados entre si pela cadeia do Espinhaço. Esses caminhos ligavam o Tijuco (hoje, Diamantina) Vila Rica (Ouro Preto). Daí para o sul, a direção era a Corte. Esses dois eixos possuíam uma ligação transversal, que, partindo de Sabará em direção ao nordeste, passava por Pompeu, Mestre Caetano, Cuiabá, Caeté, Serra da Piedade, juntando-se ao caminho de leste, no alto curso dos rios Santa Bárbara e Santo Antonio, ambos afluentes do rio Doce. Caminhos secundários colocavam arraias e vilas em contato com as vias principais, acima citadas. Subsistem até hoje muitos trechos de rede viárias da época da Colônia. Algumas estradas ainda guardam a aparência e o traçado da época da decadência de minas e de distancias em distancias, encontram-se povoados, onde se destacam a igreja principal, geralmente majestosa, e capelas, em meio ao casario miúdo. O trecho de estrada que ligava Sabará a Caeté foi recentemente asfaltado. Embora seu trajeto primitivo fosse ao longo do vale, hoje passa pelo espigão, propiciando magnífica visão da Serra, a partir do lado sul.
Atualmente, as ligações ferroviárias e rodoviárias regionais têm como pólo de convergência a cidade de Belo horizonte, capital do Estado, o que explicaria a relativamente alta densidade da rede viária.

Uso do solo.

O fato do município de Caeté estar inserido numa região metropolitana afeta de modo cada vez mais decisivo o uso e a ocupação do solo na região da Serra. A demanda crescente de espaço em torno das metrópoles provoca o avanço das áreas urbanizadas, mesmo em áreas pouco adequadas a essa finalidade. No caso dos municípios próximos a Serra – Caeté e Sabará – o grande obstáculo é a intensa movimentação do relevo. No entanto, quando a pressão é muito forte, mesmo esse obstáculo são superados. A ocupa;cão sem planejamento nas áreas de forte declive, além de trazer danos incontáveis ao meio ambiente, coloca em risco as populações aí residentes.
Analisando-se a ocupação atual do solo na regia da Serra da Piedade, percebe-se que a mais agressiva ao ambiente é a atividade mineradora. Do alto da Serra, são visíveis as grandes manchas desprovidas de vegetação, onde se faz a extração do minério de ferro. É de fundamental importância que haja projetos de recuperação dessas áreas. A outra atividade que põe em risco o equilíbrio ambiental é a urbanização desordenada, como já foi referido anteriormente.
Quanto a atividade agrícola, a mais expressiva na região é a cultura da banana, feita, geralmente nas meia-encostas, em propriedades não muito extensas. Observações de campo sugerem ser essa atividade, pelo menos no estágio em que se encontra atualmente, desenvolvida de modo harmônico com as condições ambientais da região. Também as pastagens ocupam uma importante extensão. Finalmente, uma outra atividade que vem se expandindo na área é a cultura do eucalipto, feita, principalmente, para atender à demanda da principal indústria aí localizada, a siderúrgica. Essa atividade deve, também, ser controlada, para que se evite a extinção da fauna e da flora regionais.

(Maria Elizabeth Taitson Bueno – Professora do Departamento de Geografia. Instituto de Geociências – UFMG)

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